Jornal Expresso | Crónica Feminina
Sábado, 2 de Julho de 2005
por Inês Pedrosa
A melhor estratégia
«(…) Who goes to bed with what/
Is unimportant. Feelings are important./
Mostly I think of feelings, they fill up my life/
Like the wind, like tumbling clouds/
In a sky full of clouds, clouds upon clouds.»
( John Ashbery)
A melhor estratégia é não ter estratégia. Quando a estratégia é
postiça em relação à mensagem que se pretende transmitir, acaba por
estalar, como verniz velho e, o que é pior, acaba por corromper a
própria mensagem, porque o público-alvo acaba por se sentir enganado.
Isto é válido para públicos compostos por um ser humano como para
multidões: para dar um exemplo corriqueiro, se o Joãozinho se apaixona
por nós porque soubemos fazer de conta que éramos umas vampes
indiferentes como a Mariazinha por quem ele se embeiçou antes, vai
fartar-se de nós no dia em que descobrir que somos umas fogosas
apaixonadas. Se formos um bocadinho inteligentes, acabaremos por
descortinar que o Joãozinho é apenas uma fruste perda de tempo: afinal,
quem quer amar alguém que não sabe amar perdidamente? Estratégias
leva-as o vento, e o que fica, de uma maneira ou de outra, é o resíduo
da nossa verdade. Ninguém aguenta sentir-se enganado; qualquer verdade
ingrata é pior do que uma mentira grata, e a mentira, neste país em
forma de mesa de repasto, tem a pernita curta.
Quando me convidaram para apadrinhar a Marcha Gay e Lésbica
deste ano, logo uma sequência de vozes familiares e amigas se ergueram
para me dizer uma destas três coisas, ou todas elas: a) que uma marcha é
uma má estratégia de defesa de direitos porque expõe muito as pessoas;
b) que aparecer ao lado «deles» (suponho que queriam dizer «essa gente
diferente e de maus costumes») prejudicaria a minha «imagem»; c) que ao
Rui Zink não faria mal, porque é homem, mas que, sendo eu mulher, tinha
que pensar na minha «reputação».
No fundo, não é de espantar: a Marcha ocorreu no fim da mesma semana em
que múltiplas e supostamente democráticas vozes vieram dizer que o
direito à greve fenece quando a dita greve prejudica «os mais fracos»
no caso, os estudantes. Estabeleceu-se mesmo uma nova noção de «serviços
mínimos» que abrange os exames. Pergunto: se os estudantes fizerem
exames uma semana mais tarde, já esqueceram a matéria toda? Alguma greve
alguma vez prejudicou apenas «os mais fortes»? Para que serve uma greve
que não prejudica ninguém? Claro: se o governo que assim se move contra
o direito à greve fosse assumidamente de direita, já estaria o povo
todo, comentadores incluídos, a bradar que o fascismo estava de
regresso. Como se trata de um governo do Partido Socialista, arranjam-se
milhares de justificações. O meu irmão costuma dizer que «só justifica
quem perde». Considera-se que uma Marcha é uma alegria popular se for
para dançar o vira ou para clamar por abstracções, como a «Paz». Mas se
for para lutar por direitos como esse, tão concreto, tão
constitucional, do casamento civil entre pessoas que se amam,
independentemente do sexo já é uma pouca-vergonha. Incomoda, porque
aparecem sempre uns travestis emplumados. As heterossexuais nuas que
surgem nos desfiles de carnaval são consideradas espectáculo de família.
Porque é que um transexual incomoda tanta gente? A mim, o que me
incomoda é que Portugal seja ainda tão pouco exibido, tão cheio de
entrementes, bichanices covardes, esquemas ocultos... enfim,
estratégias. E lá fui marchar.
Pude assim verificar in loco que as plumas e pailletes que tanto
perturbam o sossego familiar das famílias ditas tradicionais se
resumiam, numa marcha de quinhentos seres humanos, a meia dúzia de
pessoas. Aproveitam o pretexto para ter os seus cinco minutos de glória
e promover os seus shows. Tomar os travestis como paradigma homossexual
é tão disparatado como considerar o Avelino Ferreira Torres da Quinta
das Celebridades como modelo dos autarcas portugueses. Parecem sempre
muitas, estas figuras folclóricas, nas televisões, porque é sobre elas
que as câmaras caem e evidentemente que entrevistar travestis sobre o
casamento ou a adopção por homossexuais só serve para assustar a
população e criar mais homofobia. Pude também verificar que, se há ainda
pouca gente para marchar por estes temas de direitos humanos, há muita
gente disposta a engrossar a marcha dos voyeurs, seguindo o cortejo, no
recato do passeio, de câmara em punho, avenida abaixo. Com tristeza
verifiquei ainda a total ausência das figuras gradas da política. Não
estranhei a ausência do Presidente da Câmara até porque, como Rui Zink
explicou à SIC, ninguém sabe quem é actualmente o Presidente da Câmara
de Lisboa. Mas onde se meteram, nesta tarde de luta pela não
discriminação, todos os estrénuos democratas do país?
Outras vozes, um pouco mais elásticas, aconselharam-me a que
discursasse sempre e só a favor do casamento e nunca a favor da adopção
porque esse é terreno estrategicamente minado: «Que se casem, está
bem, mas que adoptem crianças já não me parece bem porque as crianças
ficam marcadas...». Este discurso é igual, no tom e no conteúdo, àquele
outro que reza assim: «Eu não sou racista, mas não gostava que a minha
filha se casasse com um negro, porque os filhos deles iriam ser
discriminados...». Quantas crianças vivem só com a mãe? E aquelas as
da Casa Pia, por exemplo que nunca conheceram pai nem mãe? E as
Vanessas e Joanas que são brutalizadas e mortas pelos pais? Normalmente,
os homossexuais e lésbicas têm irmãos heterossexuais o que prova que a
orientação sexual não depende da educação. Se a adopção por casais do
mesmo sexo estivesse instituída, as crianças não se sentiriam
discriminadas por terem uma família «diferente». Claro que não se pode
entregar uma criança de ânimo leve mas são os valores e o estilo de
vida dos adoptantes o que interessa, não a sua orientação sexual.
Pensem. Se todos fizéssemos um esforço por pensar clara e livremente,
libertando-nos do peso fatídico das ideias feitas, Portugal seria um
outro país muito mais justo, e tão belo como a Avenida da Liberdade,
cheia de gente unida pelo direito ao Amor, numa tarde de sol e vento.